tamoios11[1]Se Pedro Alvarez Cabral tivesse aportado na “baía formosa” da costa buziana, teria encontrado índios Tupinambás, um subgrupo da nação dos Tamoios, que viviam da caça e pesca e do cultivo do milho e mandioca. Seus ancestrais, povos nômades, nos visitaram há cerca de 2 mil 500 anos, cálculo feito pelo estudo de alguns sambaquis (restos de cozinha e esqueletos) encontrados na região.

Conta a história de Búzios que nessa terra era encontrado em abundância a espécie Caesalpinia echinatta, o ibirapitanga na língua Tupi, o popular pau-brasil, o alvo preferido das incursões européias, tanto dos portugueses que buscavam a valiosa madeira-de-lei desperdiçada como lenha pelos índios, quanto dos franceses, que vieram também por razões de estratégia geográfica.

A briga colonizadora entre franceses e portugueses dizimou os aguerrridos Tupinambás que de herança deixaram nomes como jerivá ou jeribá (palmeira baba-de-boi que dá um coquinho doce ) e que, muitos anos depois, passou a nominar uma praia e seu bairro, mas com a escrita alterada pelo povo buziano para Geribá. E, ainda, tucum ou tucuns (palmeira de cujas folhas se extraem fibras e, de cujas sementes das nozes saem um rico óleo).

O pioneiro nome de batismo português da península foi “ponta dos búzios”, devido a presença de numerosas conchas de moluscos gastrópodes em suas praias. Com a construção da Armação das Baleias de Búzios, o estabelecimento comercial, passa a topônimo substituto do original, incorporando o vocábulo composto “Armação dos Búzios”. Estas conchas eram utilizadas como adorno e como buzina, nos tempos primitivos anunciavam os combates e, até o ano de 1965, ainda podiam ser ouvido o som das buzinas, dos vendedores de peixe, anunciando a mercadoria fresca pelas ruas da península.

A precária presença portuguesa em Búzios favoreceu a estadia episódica de embarcações francesas e inglesas no porto da península. O ancoradouro fronteiro à Ilha do Caboclo, serviu como apoio terrestre as longas viagens transoceânicas, base naval de pirataria contra a navegação portuguesa e espanhola, e tráfico de pau-brasil que se fazia com a ajuda de jesuítas e índios catequizados.

Durante a década de 1950, a praia da Armação foi o sítio preferencial das primeiras residências de veraneio, visto que algumas famílias da burguesia brasileira e francesa – atraídas pela geografia paradisíaca, exuberância da caça submarina e proximidade relativa da cidade do Rio de Janeiro -, herdaram ou compraram e reformaram os antigos imóveis senhoriais da enseada portuária. A praia de Manguinhos foi o sítio preferencial das primeiras construções de veraneio, levantadas no precursor loteamento de Luis Reis e Jackon Sampaio.

No entanto, a transformação do povoado começou em 1964, com a temporada de férias da atriz Brigitte Bardot e seu namorado brasileiro. A presença em Búzios da mais famosa estrela do cinema francês foi noticiada exaustivamente pelos meios de comunicação nacionais e internacionais, dando impulso definitivo àquele que seria considerado um dos balneários mais charmosos do mundo, que passa a ser frequentado, especialmente por franceses e argentino.

À época, os buzianos entenderam que a superação do grave momento histórico favorecia a luta radical pelo desenvolvimento sócio-econômico sustentável sem a intermediação cabofriense. Empolgados com o processo libertário cabista, começaram a fazer proselitismo em busca da emancipação política-administrativa do 3º distrito.

O governo de 1989-1992 ultrapassou qualquer previsão pessimista. O movimento emancipacionista então renasceu e passou a ser financiado por Umberto Modiano, dono da “Marina Porto Búzios” e do “Hotel Nas Rocas”. Logo diversas lideranças comunitárias e políticas de Armação dos Búzios reuniram as assinaturas necessárias para iniciar o processo de libertação distrital na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

O ano de 1992 revelava-se decisivo para a pretensão libertária do 3º distrito. Todos, esperavam que o novo prefeito eleito cumprisse a promessa de campanha: aguardar o fim da ação no Supremo Tribunal Federal e, caso a sentença fosse desfavorável aos impetrantes, no outro dia,

Em 1995, as administrações cabofriense e fluminense, respectivamente, representadas pelo prefeito José Bonifácio e pelo deputado Alair Corrêa – em nome do governador Marcelo Alencar e como líder situacionista na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, marcou-se a data do plebiscito para os eleitores buzianos decidirem a questão separatista. No dia decisivo, os cidadãos compareceram de forma ordeira e maciça às urnas, consagrando o “sim” que emancipava Armação dos Búzios de Cabo Frio e depois festejando a noite inteira. Desde então, a confraternização comunitária cedeu lugar à articulação política até a escolha do prefeito, vice-prefeito e vereadores do novo município brasileiro.

Aldeia

antiga_311[1]Nas fazendas a vida só era boa para fazendeiros e sinhazinhas e, na Aldeia dos Buzios, onde morava gente muito simples, a vida era muito dura para todos. Além do peixe, alimento natural de quem mora à beira-mar, a população consumia a mandioca de onde tiravam a farinha, a banana em abundância na área, o milho e o feijão, isso quando se dispunha a plantar. Água potável só em raros poços, já que ficavam imundos durante as chuvas que dobravam de tamanho os brejos.

As casas eram toscas, de pau-a-pique, cobertas de sapé ou telhas tipo colonial, moldadas originalmente nas coxas dos escravos. Em algumas casas as paredes tinham estuque misturado com óleo de baleia para lhes dar maior consistência. Iluminação só a lamparinas com óleo de baleia, óleo de mamona, óleo da semente da frutinha conhecida por “baga” e, depois, com o “revolucionário” querosene Jacaré.

A geração de buzianos que hoje está com 80/90 anos de idade confirma, com resignação, a dureza de se viver nas primeiras décadas do século, quando a pesca era a única profissão de sobrevivência, um trabalho de arriscadas aventuras no Mar Alto entremeadas com as inevitáveis mentiras de pescador.

Colonização

A terra dos índios se tornou aldeia e recebeu o nome de Armação dos Búzios, cuja origem é controversa: uma garante que vem da exploração da pesca da baleia que denominou antes a aldeia como Armação das Baleias; outra cita a palavra Armação como “local em que se aparelhavam navios para a pesca da baleia” (Aurélio); e ainda uma outra que afirma que o nome se originou dos “moluscos gastrópodes cujas carapaças vazias eram chamadas de “atapu” pelos índios, e batizadas de Buzios pelos portugueses” (Márcio Werneck, 1997).

caravelas_chegando11[1]1501-1504 – Praia das Caravelas – O início de tudo. Américo Vespúcio aporta em Búzios e comanda a primeira expedição ao litoral brasileiro conhecida como ¨Entradas¨. Daqui também partiu Aleixo Garcia (seu escudeiro) que iniciou uma fantástica jornada até chegar ao Peru, onde havia minas de pedras preciosas. Após desembarcarem na praia das Caravelas, que dava acesso ao Sertão do Cabo Frio (área que compreende o Jardim Peró, Santo Antonio, Jardim Esperança, Buzios em sua totalidade, Campos Novos e adjacências), permaneceram cerca de três anos ancorados, usando a praia como porto nestas incursões. Neste período, tiveram dificuldades em se estabelecer, confrontando-se com tribos indígenas mais fortes (Tamoios, Aimorés Tupinambás e Goitacáses). Mesmo com dificuldades, conseguiram fundar alguns postos avançados que haveriam de ser a proteção que necessitavam para explorar as terras e formar cidades.

Com as chamadas ¨Armações¨ (acampamentos ou postos avançados, erguidos com a função de capturar índios para o trabalho escravo, de armazenar Ibirapitanga e de consertar e reformar embarcações) começa a nascer Búzios.

Em 1532 chega a primeira expedição de caráter colonizador com Martim Afonso de Souza, já com o conhecimento dos resultados das jornadas anteriores de Américo Vespúcio e suas Entradas. Os portugueses tinham duas opções para se estabelecer no Brasil.

antiga_111[1]A primeira seria consolidar aqui na região a colônia, com as armações e o armazém fortificado de Cabo Frio, já estabelecidos. Supostamente seria mais fácil e prático fixarem-se por aqui e a segunda opção seria a armação montada por Aleixo Garcia em são Vicente – SP, onde os portugueses tinham a intenção de ficar mais próximos a Bacia do Rio Prata, pois dali seria mais fácil rumar até o ouro peruano. Porém, como o desejo imediato português era o de encontrar ricas jazidas de ouro e outros metais, resolvem então rumar a São Vicente e nesta data com o comandante Martim Afonso de Souza é fundado o primeiro núcleo de povoamento no Brasil em nossa área litorânea.

Martim Afonso de Souza já sabia que por favorecimento real teria assegurado para ele e seu irmão as duas melhores capitanias, então resolve de maneira estratégica escolher as capitanias de Pernambuco e São Vicente, passando o armazém fortificado de Cabo Frio para a ilha de Itamaracá em Pernambuco e fundando a colônia em são Vicente para as incursões atrás do sonhado ouro peruano, até então, sob poder dos espanhóis. Dois anos mais tarde foram criadas as capitanias hereditárias e Búzios estaria situada no segundo quinhão da capitania de Martim Afonso de Souza.

Em 1555, por não aceitar o tratado de Tordesilhas entre Portugal e Espanha, a França invade o território brasileiro ao comando de Villegaignon e funda na Baia de Guanabara a França Antártica. Sua intenção nesta ação objetiva e politicamente expansiva era a exploração de ibirapitanga em troca de objetos sem muito valor, de maneira amistosa, conquistando assim a confiança dos donos das terras.

A estratégia teve um sucesso tão grande que iludiu nossos índios e os mesmos fundaram com apoio logístico francês uma confederação contra os portugueses que se chamava, Confederação dos Tamoios. Esta grande demonstração de força indígena expandiu-se em todo litoral e uniu três poderosas nações, Tupinambás, Tamoios e Aimorés.

colonizacao_indios1-245x3001[1]Tendo a confederação dos Tamoios como aliada e bem armada, os franceses constroem um forte que resiste durante dez anos às investidas portuguesas. No mesmo ano, com a retaliação aos franceses, Duarte da Costa usa os índios Goitacáses ao comando do Capitão Armador Estevão Gomes e começam uma incursão que inicia no Rio de Janeiro, arrasando as tribos dos Tamoios, instalando e ratificando as armações entre a Baia de Guanabara até a cidade que hoje chamamos de Campos dos Goitacáses.

Pitorescamente, a segunda parte do nome da cidade de ARMAÇÃO DOS “Buzios” vem da forma de comunicação utilizada pelos povos indígenas nestes locais onde se utilizavam dos Atapus (conchas vazias de imensos moluscos gastrópodes), como corneta quando avistavam os portugueses, podendo premeditar um ataque com quilômetros de antecedência. O atapú foi batizado pelos portugueses como Búzios, devido ao som ser estridente como o de uma buzina.

Aos Tupinambás, restou o destino da morte que vinha por vingança, graças ao fato ocorrido na capitania da Bahia, onde os indígenas comeram em um ritual antropofágico o donatário da capitania, Francisco Pereira Coutinho, causando grande indignação na corte Luso-Brasileira. Este genocídio dura 62 anos e o nosso litoral é banhando por um mar de sangue, derramado em nome de interesses feudais que acreditava na indigência de índios, matando e escravizando civilizações em nome de “Deus”.

Em 1565, Estácio de Sá derrota os franceses depois de dez anos de resistência e estes por terem conhecimento que os militares portugueses haviam iniciado aparelhagem do local com armações de captura e armazéns de Pau-Brasil, refugiam-se em Buzios e Cabo Frio.

Entre 1567 e 1574 os portugueses chegam com tropas e a batalha contra os franceses e a confederação dos Tamoios tem inicio em território buziano e cabo-friense. A igreja católica em 1591 implanta o projeto jesuítico com uma nova visionária a fim de acabar com as barbáries contra a nação indígena dando apoio e cobertura aos povos massacrados pela escravização, instalando-se sempre em lugares de conflito onde há também o tráfico de índios.

Em 1600 as incursões iniciadas por Estevão Gomes 62 anos antes e ratificadas com a aniquilação dos franceses e a confederação dos Tamoios em Búzios e Cabo Frio, retornam a Guanabara deixando nas adjacências de uma das Armações o desenvolvimento colonizador.

Foi introduzida a indústria da pesca da baleia em 1603 no nordeste do Brasil. A estrutura da pequena vila da armação foi aproveitada, a fim de criar um posto de mastreação e velame (provavelmente clandestina, de corsários, pois a primeira armação legal da região foi instalada em 1729 em São Sebastião com monopólio do governo português) para embarcações pesqueiras de baleias.

aldeia111[1]Inicia-se também nesta época a catequização indígena e os conflitos entre jesuítas e bandeirantes armadores nas capitanias. A verdade é que do contrabando de pau-brasil os portugueses passaram para o tráfico de escravos africanos que eram desembarcados clandestinamente em diversos ancoradouros da aldeia e daí levados para o Rio de Janeiro.

Em 1630, com a condenação do escravismo indígena divulgado pela igreja católica desde 1591, faz os jesuítas interferirem na briga, deslocando-se para as áreas de conflitos na intenção de cateczar, educar e dar apoio aos índios. Brás de Pina constrói em 1743 a 1ª igreja católica em Buzios, tornando-se a partir de então distrito da cidade de cabo frio e devido a necessidade do desenvolvimento da pesca as baleias para o aproveitamento do óleo na iluminação pública e na construção civil, ele recebe em 1746 o direito legal de explorar a caça da baleia no Brasil, fato que teria dado origem ao nome da praia dos Ossos. Outra hipótese para o nome teria sido um grande genocídio indígena cometido em 1865 com aproximadamente 5000 mortos.

Dezenas de escravos ficavam em roçados de banana, milho e feijão das fazendas da região, como a pioneira Fazenda Santo Inácio de Campos Novos (na região da Rasa), originalmente construída pelos jesuítas que ali viviam em 1630 a catequizar índios e confiscada, em 1757, pelos portugueses e vendida a fazendeiros ricos e escravagistas que enfrentaram mais tarde a resistência de quilombos.

Em 1759, Marques do Pombal expulsa os jesuítas do território português pela oposição ferrenha ao escravismo. A fazenda Santo Inácio dos Campos Novos é vendida para grandes fazendeiros. No início do século, a Campos Novos foi comprada pelo empreendedor alemão Eugène Honold que tentou transformá-la em fonte de exportação de banana. Querido por uns, odiado por outros, “o alemão” desistiu, entregou a terra para feitores que passaram a ter graves problemas com empregados e arrendatários (atualmente está decadente, deteriorada, saqueada e abandonada pelo o governo de Cabo Frio que se tornou proprietário, em 1993, num processo de desapropriação).

antiga_211[1]Entre 1750 e 1870 inicia-se a colonização de Buzios definitiva, com interesses no desenvolvimento da agricultura e da pesca, utilizando-se da mão de obra escrava. Após a proibição da venda de escravos e a implementação da lei do Ventre Livre o tráfico continuava através do capitão José Gonçalves, permanecendo até o ano de 1888. Esta mão de obra escrava era aproveitada em fazendas, principalmente no plantio de bananas. Os outros negros que vinham refugiados do interior do estado, do plantio da cana, estabeleciam-se entre a Fazendinha (José Gonçalves) e a Rasa, formando um Quilombo.

Com a evolução da colonização de Buzios, famílias influentes penetraram de forma definitiva na vida e no desenvolvimento de uma nova civilização, passando a lotear as terras herdadas, organizando-se em comunidades e deixando descendentes nativos, misturados aos negros e a muitas outras raças de visitantes que resolveram viver em Búzios, conquistados pela exuberância da natureza.

Antonio Alípio da Silva foi o primeiro representante político do então 3º distrito e a partir de 1940 começou a vida política de Buzios com a participação de alguns representantes na câmara municipal de Cabo Frio.

Búzios cresceu e começou a receber personalidades ilustres como Brigite Bardot que abriu as portas da cidade para o mundo no ano de 1962.

antiga_311[1]A partir de então, a cidade despertou para o turismo internacional, atraindo gente famosa e absorvendo identidade exclusiva de características ecléticas e excêntricas. Ativistas políticos como Toninho Português, Marcos Canhedo e Manuel Gomes, juntaram-se a movimentos populares que surgiram em favor da emancipação, visto que Buzios encontrava-se desordenada e abandonada a própria sorte, em um momento de desenvolvimento social importante. Já em condições de organizar-se e caminhar por suas próprias pernas, o movimento pró-emancipação tomou forma, e alguns vereadores que compartilhavam desta necessidade, como o arquiteto Otávio Raja Gabaglia, tiveram papel fundamental nesta decisão política.

A emancipação veio no ano 1996 e o povo elegeu no voto popular o Prefeito Delmíres de Oliveira Braga, nativo, filho de pescador, conduziu a cidade até o ano de 2000, conseguindo se reeleger por mais quatro anos na intenção de continuar melhorando a qualidade de vida dos seus habitantes e turistas.

Pré história de Buzios

pre_historia11[1]Há 520 milhões de anos, a região de Armação dos Buzios fazia parte de uma gigantesca cadeia de montanhas, semelhante a do Himalaia. Este “Himalaia brasileiro” foi gerado durante a colisão entre blocos continentais da América do Sul e da África. A união entre o Brasil e a África gerou um continente ainda maior denominado GONDWANA. Somente há 130 milhões de anos o continente GONDWANA começou a se fragmentar, dando origem ao Oceano Atlântico e separando novamente Brasil e África e assim a pré história de buzios.

Em Búzios, essa extraordinária história geológica pode ser observada em dois pontos da cidade: na Ponta da Lagoinha as rochas indicam a paisagem semelhante às montanhas do Himalaia e, na Ponta do Marisco (canto direito da praia de Geribá), há indícios geológicos da abertura do Oceano Atlântico e do fim do “Himalaia brasileiro”.

Melhor assim: não se precisa escalar nenhum Himalaia para chegar a Buzios e tem-se à disposição as delícias do Oceano Atlântico banhando as 23 praias buzianas.